Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Espera vermelha, cor de fogo




Ele odiava esperar. E pior do que isso, esperava pelo que não vinha mais. Espera pelo duvidoso, pelo incerto, pela incógnita, pelo x da questão, era uma espera chata, cansativa, mas que todos os dias ele estava lá, na espreita , esperando pelo futuro tão indecifrável que era o dele. A espera tinha haver com o telefone vermelho que ficava na sua sala de estar, chique, baseado nas decorações de Londres, depois da recente viagem que ele fizera. Entre as almofadas e os sofás de couro cinza, estava o telefone com fio, vermelho, da cor do fogo, da cor da espera dele, que era infinita. 
Estava mal, muito mal. Os amigos do trabalho, o taxavam como louco, os seus familiares o chamavam de psicótico, pelo simples fato dele falar só e sonhar só e rir só e fazer sexo só, se é que me entende. Tudo dele era só, só ele e o seu eu, eu lírico e caneta, história e autor. A solidão sempre fez parte de sua vida, até para nascer não precisou da ajuda de ninguém, o médico nem teve muito trabalho, abriu as pernas da mãe e com apenas dois gritos com pouca força o tal saiu, veio ao mundo, nem chorou. Talvez tivesse previsto que gastaria suas lágrimas em outras ocasiões, estas não iriam lhe faltar. 
O rendimento no trabalho vinha ruim, na vida social então, vinha pior ainda. Não saia, não fazia supermercado, nem lia a coleção de Dostoiévski e Kafka que se amontoavam na cabeceira da cama, não assitia os filmes de Tim Burton, que ficavam arrumadinhos e lindinhos na estante da sala, não fazia nada, só ficava em frente ao telefone, esperando pelo seu toque. Fez do carpete do chão a sua morada, e não queria mais sair. Esperava esperava e nada. Nada de toque, nada de ligação, nada de sinal. Nenhum sinal de vida, quanta maldade.
A noite escura deu lugar ao sol, que com seus raios ultra violentos o atingiam com toda a força. Odiava o dia, o a luz era sua inimiga, o escuro era seu parceiro irmão camarada. No preto, era home, no branco, era fantasma.  Ao acordar ligou para o chefe avisando que não iria trabalhar porque não tinha acordado bem dispostos, estava com fortes dores na coluna, não era mentira, era verdade. As dores eram relativas às suas investidas em frente ao telefone que nunca tocava, nunca. Pegou o jornal, leu as notícias do dia e pensou consigo mesmo: "enquanto uns se prendem à internet ou ficam vidrados nos celular, nas redes sociais, eu fico aqui, preso a um telefone com fio, sem poder sair de casa". Isso essa a pura verdade: ele com seus vinte se cinco ou vintes seis anos de idade, preso ao passado, ao passado que por ironia do destino tinha sido um dia o seu presente. Tomou chá verde, comeu bolachas de sal e água e ficou deitado olhando para o teto branco de seu quarto. Resolveu fazer diferente naquele dia. Não iria ficar em frente ao telefone na sala, ia ficar no quarto mesmo, se por acaso tocasse, sairia em disparada para atender e escutar a voz do outro lado do fone. E foi o que aconteceu. 
Estava prestes a cair em um de seus sonos intermináveis. A casa toda estava em silêncio, o único barulho era do ar condicionado que jorrava vento frio pelo quarto. O telefone tocou. Triiiiim! O primeiro toque arregalou os seus olhos. Triiim! O segundo toque, lhe trouxe á realidade. Triiim! O terceiro, lhe deu medo. Triim! O quarto lhe atingiu em cheio. Triim! O quinto, lhe dilacerou. Não teve ação para correr, para ir atender o telefone, suas pernas não o deixaram, ele ficou tão abismado com o toque estrondoso  que rompeu o silêncio que não levantou, ficou na cama e caiu em sono profundamente. Acordou três dias depois. Olhou em volta do seu quarto, estava tudo do jeito que tinha deixado ao cair em estado de hibernação. Viu as milhares de mensagens e telefones do seu celular, isso não lhe importava mais. Tinha tomado uma decisão, não sairia mais de casa, enquanto não atendesse aquele telefone. 
E foi o que ele fez, durante os próximos três meses, ficou esperando o telefonema e nada. Estava vegetativo. Não tinha mais comida, nem água, nem nada, sua casa, se tornara uma selva, onde um bicho ávido pela presa não faz nada ao não ser caçar. E ele estava na sua caça, caça ao mistério, caça ao duvidoso, nem eu mesmo, sei o que tanto lhe torturava. O tempo passou, os dias e as noites trocaram seus lugares, os boêmios saiam à noite, os padres rezavam as missas, as beatas dormiam nas missas, as prostitutas ganhavam a vida, Caetano Veloso cantava suas músicas normalmente e a vida seguia, só não para ele que de desgoto por não ter atendido ao telefone, morrera. Morrera na mais profunda tristeza e solidão. Seu cadáver se instaurou na sala, o odor ganhou as ruas da Paulista e o mundo. Depois de tudo isso, depois de quase um ano de espera por uma ligação, o telefone toca, toca repetidamente vinte e cinco vezes e mais uma vez e mais outra vez e mais uma e triiiim!. O telefone tocou, mas agora já era tarde demais... 










Eduardo Sousa 




sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A mosca da minha sopa


Bebidas. Noite e dia. Dia e noite. Era assim a vida e o cotidiano de Suzane, a prostituta da Rua do Ouvidor, como todos a conheciam. Era loura, magra, tinha mais ou menos 0.62 cm de cintura e gostava de Led Zeppeling e Rolling Stones. Se dizia agnóstica, mas quando passava lá os seus perrengues com os clientes que não queriam pagar, ela olhava para o céu e implorava o amor de um certo Deus, só ela sabia quem era esse. De dia passava o maior tempo fumando cigarro e bebendo cachaça, vinho, gim, conhaque, tudo, todas as bebidas que você possa imaginar. Era Suzane, sendo Suzane. Com o temperamento forte de gaúcha, ela tinha os homens que queria e por conta disso cobrava, cobrava alto, muito alto,verdadeiros milhões de cruzeiros, sim na época ainda eram os cruzeiros que fazia sucesso na tribo do Brasil. Não tinha nenhuma ocupação, era apenas mulher da vida, tinha o maior prazer de contar que ganhava a vida saindo com os casados-e-não-casados-e-gays-e-héteros-e-bissexuais-e-mulheres, enfim, bastava chamar sua atenção, que sua líbido alertava pelo sexo e claro, pelo money. 
Suzane, drogada, meretriz era simpatizante das boas coisas da vida. Sim, ela soube praticar bem a vida, por mais que não tivesse tanta experiência assim , ela soube aproveitar como poucos a vida que alguém lhe dera. Acredito que Suzane nasceu espontânea, pois não gostava de ser dependente de ninguém, nem mesmo de um ventre que lhe carregara durante nove meses, mas desta parte eu não falo, pois só conheci Suzane quando ela tinha dezoito anos, na flor da idade, como dizem por aí. Tudo em cima, os peitos fartos, o quadril redondo, a cor de neve, os cabelos naturais, sem nenhuma tinta, foi assim que me apaixonei pelo jeito riponga dela. Era enigmática, mas nem ela mesma sabia disso, era inocente, apesar dos pesares, era inocente de toda a vida. Eu só conheci Suzane de vista, uma visão linda  imagética que eu tinha dela. Passava tarde da noite na Rua Olávio Bilac, onde ela costumava "trabalhar" e  a via sentada, esperando por uma resposta da vida, por um cliente, tudo para comprar e bancar o seu vício. Nunca a vi sem estar segurando uma garrafa de conhaque. Gostava de conhaques, caros, luxuosos, por isso, quando queria comprar um, fazia mais de quinze programas por dia. Quando acabava o expediente, comprava o seu conhaque e ia ser feliz em seu quitinete de dois cômodos. Uma sala-quarto-cozinha e um banheiro três por quarto. 
Por ser cobrador de ônibus, sempre cheguei em casa tarde e sempre via Suzane rodando a bolsinha lindamente, sim, lindamente. Ela sabia ser sexy, sabia ser vulgar, sabia ser mulher e sabia ser prostituta, era multifacetada. Vou revelar para vocês que nesse dia parei para conversar com Suzane. Um diálogo meia boca, rápido, mas que de imediato me revelou-a. Depressão, alcoolismo, cocaína, maconha, cigarro e saudade. Tudo isso fez parte da sua vida até o último momento em que foi achada morta por uma vizinha. O quartinho foi achado todo sujo de bebida, cinzas de cigarro, tomate, arroz, copos e taças, bitucas de maconha, tudo no chão. Na pequena mesa foi possível ver Suzane, a prostituta mais linda que eu já vi em minha vida com a cara num prato fundo de sopa. Morreu afogada em sua própria comida, por estar completamente bêbada, não raciocinou o momento e cabum! morreu. Fiquei triste e agora só me resta lembranças e sonhos com a mosca da minha sopa, Suzane, que por questões matrimoniais e casuais nunca fora minha. 








Eduardo Sousa 

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Flores pra quem?


Nem só de flores vive uma mulher. Aliás, Vera nunca tinha recebido flores, muito menos bilhetes, ou pensando alto, bilhetes de admiradores secretos. Não, nunca, nada disso. Só recebera as injustiças e as decepções da vida, assim de mão beijada, tudo grátis. Tinha um caos no coração, uma reza que não dava jeito e uma sorte pra lá de ruim. 
Vera era Vera, era só, era solitária, era humana, era cansada, era Vera, com v de vida, mas que na verdade não tinha nada. Ela era daquele tipo de pessoas, que a gente diz que só falta o caixão, pois a pessoa já está morta. Vera não andava, ela arrastava-se pelas calçadas da rua. Tropeçava nas linhas tênues de recife e da vida, principalmente desta última.
Era datilógrafa e não tinha muitas condições de ter uma vida luxuosa, tinha apenas uma "vida simples/humilde", isso mesmo entre aspas. Recebia pouco dinheiro, que não ressarcia de maneira algum, o curso que ela fizera mais cedo para aprender a bater na máquina de escrever. Aliás, isso era a única coisa que ela fazia bem, escrever as cartas para os clientes da loja onde trabalhava. Tirando isso, mais nada. Nada. Digo com frequência de que Vera esperava por uma coisa que não vinha, que não existia, que não tinha nome. Porém, ela em sua vá tentativa esperava, esperava e esperava. Ela comprava flores sempre, adorava rosas vermelhas da cor do sangue, desejava entregá-las a alguém, flores pras quem?







Eduardo Sousa


terça-feira, 29 de abril de 2014

Mar de pipas

Uma segunda-feira é tediosa para muitos, digo que é quase para todos, mas para nós, os meninos da rua do Sal, como era conhecida a rua que antecedia o mar, a segunda-feira era uma odisseia, pois era o começo das traquinagens, das brincadeiras de pião, do esconde-esconde, do famoso sete pecados,  do carimba e claro que não podia faltar, as pipas. Para os meninos da rua do Sal não havia tempo ruim, depois da aula, no sol de maio fervendo, rachando a cuca, nós brincávamos, brincávamos e assim escrevíamos as páginas da infância que outrora, sem sombra de dúvidas, sentiríamos falta.  Romeu, Júlio, Juliana, Cacá(eu), Douglas e Fátima, mas conhecidos como os meninos da rua do Sal,  de grão em grão fomos construindo a nossa fama de  gangue. É, isso mesmo! Gangue de crianças que não tinha nenhum problema, a não ser quando uma bola caia na casa do vizinho ou coisa parecida. Lembro de uma vez que  o Douglas tinha acabado de ganhar uma bola da Coca-cola e a gente foi  brincar de carimba, mas um impulso falso da Juliana fez com que a bola fosse parar nos quintal da dona Gláucia, a mulher mais chata e ranzinza da  rua, do bairro, do mundo. A mulher era um cão, literalmente. Mas isso daí são outros quinhentos, conto para vocês numa outra hora. 
Só quero relatar uma lembrança de quando a nossa turma se reunia para soltar pipa, depois de todas as outras brincadeiras e invenções a última do dia era soltar pipa. Lembro que a rua era pequena, estreita e ficava lotada de criança, vinham meninos e meninas de todas as outras ruas,  de todas as idades, quer dizer, não podiam ser mais velhos do que nós, porque sempre gostávamos de ser os mais "velhos" da rua para que as regras do jogo fossem traçadas por nós. Como eu ia dizendo, a segunda-feira era um dos dias principais dias, pois a rua estava fazendo, depois da aula, íamos  todos para a frente da casa do Douglas, e nos dividíamos em grupos de cinco. Um grupo ficava a gente; os meninos da rua do Sal e os outros eram com os meninos que restavam. Era uma farra só. 
As pipas flutuavam como se fossem pássaros. Era um mar de pipas.  O Tito, um menino da rua de trás, se tornava o maior vilão nessas horas. Ele vendia as pipas, de todos os tipos, cores, formatos, tamanhos e quando alguém perdia,  nos famosos combates de corte, ele já anunciava que venderia as pipas, só que era um preço tão caro, mais tão caro que era preciso ter uma pequena discussão para que ele abaixasse o preço  e assim continuássemos a nossa tarde das pipas.  É, se eu for contar a minha minha vida , as minhas manhãs, tarde e noites da infância, tenho certeza de que daria um livro, um exemplar de como viver bem a infância, pois se teve uma época que eu vivi intensamente foi a infância. Como não dá para voltar no tempo(clichê), o que resta é lembrar de tudo o que aconteceu. De todas as quedas, de todas as brigas, de todos os gols, de todos os esconderijos, de todas as pipas, de toda a infância. 



Eduardo Sousa

domingo, 2 de março de 2014

Entre confetes e serpentinas!


E eis que chegou o domingo de carnaval que ele tanto esperava. Para quê? Para quê mesmo? Para colocar a sua fantasia e fazer tudo o que ele tinha direito e desejo de fazer, mas não fazia , por medo ou por timidez. Pegou a sua mochila que já estava bastante abastecida com as compras que sua mãe fez, por insistência dele. Tinha na bolsa: espuma branca, espuma colorida, confete, purpurina, trompete de plástico e alegria, bastante alegria. Tinha apenas dez anos e já era afoito por carnaval, pela festa, pelo grito, pelo mela mela.  Pediu a benção a mãe, ao pai, aos avós e saiu com sua prima Juliana. Saiu com destino à felicidade. Era domingo, de carnaval por sinal, o sol estava quente, de rachar qualquer fantasia. 
Sua prima estava com uma roupa toda rosa, estava de bailarina. Tinha uma saia  de tule rosa clarinho e uma maquiagem bem carregada, nada apropriado para crianças, que ela mesmo tinha feito na rua. O menino estava de calção preto, blusa branca, sapato preto e colete preto. Tinha na cabeça uma cartola e nas mãos uma varinha mágica. Pois é, ele estava fantasiado de mágico. 
O mágico da rua 15. Estava atrás de sua colombina, de sua maria bonita. A prima já tinha achado as amigas no empurra empurra que estava tomando conta da ladeira principal. Ambos moravam em Olinda, em um rua antes  de onde acontece toda a folia. 
Pronto,o desejo do dia já tinha sido realizado. Já estava com a sua fantasia, com seu kit de mela mela nas mãos, entre confetes e fantasias. Mas algo estava faltando. Não sabia o que era, mas que tinha algo faltando, ah, isso tinha. Abriu a bolsa e colocou para dentro da boca um chiclete de morango que ele tanto adorava. O chiclete custava caro, por isso só comprava e comia em ocasiões especiais, e aquele, era sim, um dos tais. Reparou que uma figura que estava fantasiada de rapunzel. Estava com uma peruca enorme amarela e com uma máscara tampando o seu rosto. Ele imediatamente queria saber quem era a princesa que estava ali, tão enigmática. Ele jamais ousaria fazer aquilo se não fosse o carnaval.Atravessou o montante de gente que estava no meio, e foi aí que aconteceu, entre confetes e serpentinas que ele tirou a máscara da rapunzel e beijou. Deu um selinho de criança e correu. 
A rapunzel correu atrás. Ele não sabia o que fazer, queria  usar algum poder da sua fantasia de mágico e sumir, pois a rapunzel vinha com tudo atrás dele. E daí ele entrou numa rua sem saída e a fera veio em sua busca, foi aí que ela chegou bem na sua frente, ele fechou os olhos e aí: PÁÁÁÁ! SMACK! Ela tirou a máscara que estava usando e deu um beijaço no mágico da rua 15. Os dois ficaram lá dando selinhos e mais selinhos. Os dois não lembravam, mas foi nesse dia, entre confetes e serpentinas que o amor desses dois nasceu. 


Eduardo Sousa

sábado, 1 de março de 2014

Ô abre alas


Dessa vez a turma do funil não veio. Não chegou. Nunca teve. É, nunca teve. Depois de levantar da sua cama às 07:00hrs em ponto, Carlito pensou: Carnaval,estou sozinho, sem turma, sem funil, sem barril, sem todas as palavras com il. Sem nada.
Queria fazer alguma coisa, mas estava sozinho. Mal ele sabia que estava com a melhor de todas as poucas companhias que ele teve: ele mesmo. Só que ainda não tinha reparado para si, para dentro.  Estava alucinado pelo mundo exterior, pelas coisas que seus olhos viam, pelos dissabores da realidade. Tinha até se acostumado com as peripécias que o mundo lhe pregava, parece que colecionava desastres,choros. Pegava tudo isso e armazenava dentro de uma bolsa, mais conhecido como coração. Não aturava diálogos com ninguém, vivia envolto de uma cápsula que ninguém, ninguém, nunca ousou abrir. Será que ele esperava por isso? Por ser descoberto?

Teve uma ideia. Uma boa. Já que ultimamente não pensara em nada. Era como se o seu cérebro tivesse tirado férias indeterminadas, onde ele só estava vivo dos pés aos ombros. O pensamento não existia e quando existia lá vinham lembranças, tormentos, medos. Lembrou que tinha uma bicicleta guardada no quintal de sua casa. Uma bicicleta verde. Verde da cor da grama, da cor dos bancos da praça que ele costumava  ir, raramente, mas ia. Verde da cor da esperança. No fundo, no fundo, bem lá no fundo, no seu âmago, ele tinha uma pitada de esperança. Esperança de sair daquele casulo íntimo, daquela vida anônima, daqueles sentimentos guardados. Teve pois a boníssima ideia, digo a brilhante ideia, de pedalar um pouco na praça dos bancos verdes, da cor de sua bicicleta.

Pegou a bicicleta e reparou que ela ainda estava com as fitinhas coloridas que ele tinha colocado. Quanto tempo faz que ele não anda de bicicleta? Será se ainda sabe? Vai se arriscar? Logo hoje, carnaval? Mas foi. Foi livre.Quase tocou a marchinha de carnaval: Ô abre alas que eu quero passar, Ô abre alas que eu quero passar... Sem nenhuma dúvida, subiu na bicicleta. As alas se abriram para a sua passagem. Pensou nos seus tempos de criança e um sentimento pueril o invadiu rapidamente. E pedalou.Ousou até andar sem as duas mãos, uma das coisas que ele mais gostava de fazer. Correu atrás do ar, atrás do alvo, em busca da esperança. 


Eduardo Sousa

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A aniversariante da rua do Cais

Ela tomou banho e pôs o seu   vestido que sua mãe lhe dera como presente de aniversário. Um vestido lilás, com rosas bordadas e uma fita que ficava em forma de círculo na  sua cintura fina. Estava fazendo dez anos de idade e parecia que já tinha uns vinte, pois era uma criança traquina, desmíolada, como os seus amigos a chamavam. Não tinha brincadeiras nada normais para  uma criança de dez anos. Seu aniversário caíra em uma quarta-feira, repartindo a semana, então pensara que não daria ninguém em sua festa, que comeria os salgadinhos, os docinhos de chocolate, os brigadeiros com granulados coloridos e o bolo de aniversário sozinha. 
Esse era o item mais esperado por ela, pois a mãe dissera que o bolo só estaria na mesa na hora do "é big, é big, é big,é big, é big, é hora, é hora, é hora, é hora, é hora..Então ela fantasiou. Fantasiou um lindo bolo grande, com glace branco e decorado com morangos bem vermelhinhos. Ou então no lugar dos morangos, poderia ficar os kiwis, que ela tanto adorava. 
O dia estava fazendo um solzão e a rua estava bastante movimentada. O início da festa estava marcado para quatro horas da tarde. Já era quatro horas da tarde e ninguém tinha chegado. Começou logo a chorar,  e a borrar a pequena maquiagem feita por ela mesmo no seu rosto redondo de bolacha. Ela exagerou tanto no blush que parecia que tinha caído de cara no chão. A água que escorria de seus olhos se misturou com o rosa choque do blush e ficou uma melecada só. Foi quando um primeiro convidado chegou. Um primo seu. Rafael. Para ela não contava , pois ele era da família e claro que não podia faltar. Ela queria mesmo era as suas amigas da escola. Onde estavam aquelas zinhas? Aquelas vaquinhas muchas? Os pensamentos da menina estavam loucos. 
Deu cinco horas da tarde e nada. Só estava ela, sua mãe e Rafael, sentados na sala, rodeados de balões coloridos,de uma mesa com bastante doces e salgados, mas sem bolo. Foi então que ela perguntou do adereço mais importante da festa. Mais importante até do que os convidados, que até o momento estavam ausentes.E sua mãe nada disse. 
Cleide,a mãe, já estava nervosa, se perguntando onde estariam os colegas de Cássia. Onde estariam?  Foi aí que Cleide se lembrou da grande surpresa. Na mesa estava faltando o bolo de aniversário. Quando ela ligou os pontos já era tarde demais. Sua casa fora invadida por dezenas de crianças, com embrulhos enormes nas mãos, todo mundo entrou em fila indiana e entregou o presente para a aniversariante, que era Cássia. Todo mundo entrou, sentou e pegou um copo de guaraná e uns salgadinhos. 
A melhor amiga de Cássia, perguntou :
-Cássia, mais cadê o seu bolo de aniversário? Você não fez? Na mesa só tem salgadinhos e doces. Cadê o seu bolo?
A menina olhou para a sua mãe, com milhares de perguntas. Onde estaria mesmo o meu bolo de aniversário com glace e morangos ou kiwis enfeitando? O-n-d-e e-s-t-á o m-e-u b-o-l-o maiiiiiê?  Cássia ficou eufórica e não soube o que responder, quando ousou em falar , a porta da casa se abriu e Zélia, ajudante da casa, entra com um bolo de dois andares. Do jeito que ela queria, branco e com morangos bem vermelhos.
Ela ficou muito feliz, olhou para a sua amiga e piscou. 
Então a festa continou. Com bastante música da Xuxa, brigadeiros, balões, salgadinhos, refrigerantes, bolo confeitado e a alegria estonteante de Cássia. A aniversariante da rua do  Cais. 


Eduardo Sousa

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Madrugadas

Deitou na cama com a esperança de que ela viesse novamente ao seu encontro. Cochilou, acordou. Cochilou, acordou. Cochilou, acordou. Viu que já tinha chegado a hora. A tal temida insônia, tormento de uns e alegria de outros, chegara. A insônia era uma companhia para esse moço noturno, uma saída. Sim, uma saída, pois quando colocava a cabeça no travesseiro e ousava  dormir, lá se vinham os pesadelos e as catástrofes, e as bombas, e as brigas, e as aventuras, tudo coisa da imaginação.
Ele acordava do seu pequeno cochilo toda meia-noite, levantava e logo pegava o seu isqueiro bic e seu maço de cigarro Hollywood. Acendia um cigarro atrás do outro. Tinha o trago longo. Sugava o filtro do cigarro e soltava baforadas enormes de fumaça, que deixavam o quarto com um forte cheiro de nicotina, matando as baratas que existiam no quarto. Ele preferia cigarros mentolados, mas na falta de, juntava seu Hollywood com tic tac e ficava um sabor menta. Artificial, mas ficava. 
A madrugada era pequena para o seu despertar. Não conseguia mais dormir, então ficava fumando e observando a rua escura e deserta pela janela. Era um ritual. Levantava. Fumava. Abria a janela.Observava. 
Um certo dia, ele quis ousar. Depois de feito o ritual, decidiu que assim que o azul celeste do céu aparecesse, iria dar uma volta na praça perto de sua casa. Dito e feito. O azul apareceu e ele foi. Foi de óculos escuros, de calça jeans preta e moletom cinza, ah é de chinelos. Queria sentir o ambiente frio do início da manhã nos pés. 
Se encantou com o dia. Nunca tinha feito isso, de sair de casa nesse horário, até porque ele só tinha a manhã para dormir,  já que durante a noite não conseguia. Tinha que ir para o seu trabalho a tarde, com  ou sem sono, tinha que ir , de qualquer maneira. Ele trocava o dia pela noite, entende? Era viciado em madrugadas. 
Nunca fora ao médico para saber os reais motivos de seu "sistema" nunca ter se acostumado em dormir no período da noite. Para ele, não tinha problemas em relação a isso, só não gostava dos efeitos colaterais. Passava  a tarde sonolento, grogue, com a voz morta, mas gostava. 
Gostava da insônia na madrugada. Gostava de estar acordado enquanto todas as outras pessoas dormiam. Gostava de ver o que os outros não via. 
O que ele via mesmo? 
Via os segredos da madrugada. 

Eduardo Sousa